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Archive for maio \29\UTC 2009

R.A.P. entrando em cena! Cena underground com LTA…

Lucas Teixeira do Amparo, residente de Ermelino Matarazzo, Zona Leste de São Paulo, estréia a série de entrevistas com MCs da cena underground do RAP que este blog publicará.

LTA já é conhecido de frequentadores de eventos do RAP nos bairros periféricos de São Paulo, através de rimas com sua crew, Afrika Kidz Crew (não trio!) e o freestyle, mais conhecido como rimas de improviso, no encontro de MCs que ocorre todos os sábados, às 20h30, na saída do metrô Santa Cruz.

LTA também ganhou notoriedade ao vencer o Duelo de MCs do programa Manos e Minas, na época comandado por Rappin Hood. O Mc da leste desbancou quatro MCs, entre eles Jhank na final e ganhou como prêmio a produção de um cd totalmente pago pela TV Cultura.

Confira abaixo a entrevista concedida por LTA ao blog:

Nome (real)?

Lucas Teixeira do Amparo

Vulgo? Porque?

LTA que significa as iniciais de meu nome. Comecei com isso registrando tag na época de escola e depois o nome foi levado a sério na música.

Quando o RAP começou na sua vida?

Mais ou menos em 1999, na febre do disco Sobrevivendo no Inferno, do Racionais MC’s. Tinha 9 anos nessa época, mas meu pai havia comprado o disco. Lembro que a gente escutava direto e na rua de casa não tinha ninguém que não cantava as letras. Com isso, fui pegando gosto e conhecendo outros grupos.

Qual rima marcou o início da sua trajetória? Pq?

“Rap é compromisso, não é viagem” [Rap é compromisso – Sabotage] porque marcou uma época muito forte, que contagiava qualquer um que gostava de rap e isso fica na lembrança.

Quais foram os rappers que te impulsionaram? Pq?

Pô, Racionais foi um dos grupos que me impulsionou tanto pela postura do grupo, comportamento e pelas letras e bases que sempre me agradaram muito e que até hoje acaba servindo de inspiração. Também houve muitos outros: MV Bill, Sabotage, se eu for citar cada um aqui não cabe…

LTA 2

Início de caminhada no RAP. Como começou? Quais grupos fez parte? Porque dos nomes e motivo da saída?

O início foi em 2005. Meu primeiro grupo foi o Rimas Periféricas que é um grupo que tinha com um parceiro de escola que morava aqui na leste também, mas não durou muito tempo. Fazia uma pegada de rap na qual não era bem minha intenção no fundo mesmo.

Aí, no mesmo ano, só que para o final do ano, comecei a fazer parte do coletivo Afrika Kidz Crew, o qual faço parte até hoje e no ano seguinte do Projeto Habibz.

Nota do blog: O coletivo Afrika Kidz Crew é formado por oito MCs. São eles: L.T.A., Bitrinho, Rafaela, Ericone, D. Flow, Andrei P.R., Loko da Sul e 10= (leia-se Desigual).

Qual a melhor música do RAP nacional pra vc? Pq?

Ah, não dá pra definir a melhor música, pois tem muita música que eu gosto muito. Mas vou falar uma das minhas preferidas que é Fórmula Mágica da Paz, do Racionais MC’s, por eu pirar nessa letra e nas idéias, cantada de forma única.

Qual a melhor música do RAP gringo pra vc? Pq?

Muito difícil também de escolher uma, mas no momento vou fica com Keep Ya Head Up, do 2Pac, pelo fato de ter escutado muito mesmo esse som e marca muito meu início no RAP. Pirava tanto no som como no clip, que me deixava centralizado na cadeira acompanhando o MTV Yo! Raps. Com o tempo, acabei conhecendo muito o som e fica difícil até os 20 preferidos. (risos)

Decepção no RAP é?

Desunião, ver gente fazer por moda, inveja…

Motivação no RAP é?

Ver que tem gente que ainda faz por amor, paga muito perrê pra fazer show e trazer cultura pro povo. E gente que escuta com o coração e entende a mensagem que realmente o RAP passa.

Qual seu objetivo no RAP?

Primeiramente terminar meu disco solo, fazer os corres com minha crew e ser valorizado por isso um dia. Se possível, viver disso um dia, fazendo da minha maneira não seria ruim também (risos)… mas aqui no Brasil a gente nem é levado a sério com a música direito…

LTA Agora

O que o RAP será amanhã para você? Como você enxerga o RAP no futuro?
Pô, o RAP no amanhã eu vejo muita coisa boa, tipo como a evolução que se percebe nas batidas de hoje em dia, nas levadas. Vejo a internet que já ajuda em certo ponto e pode ajudar muito a gente também, sabendo usar da maneira certa. Mas, às vezes, meio que me preocupa o rumo que vai tomando, mas é aquilo, o que é real não morre, então, enquanto houver resistência, haverá garantia de um futuro bom pra nós. E o que tem para mudar hoje é que precisamos correr atrás mais do nosso espaço, sabe… Quando comecei a curtir RAP, todo fim de semana se ouvia propaganda de shows, campeonatos de DJ’s, de dança e hoje o que se vê mais é balada e tal. E nos poucos shows que rolam, parece mais festa só pra MC (risos). Fica tipo um monte de MC observando a atuação do outro. Acho que a gente tem que resgatar mais o público do RAP, realizar mais eventos em CEU, SESC, procurar um espaço no Centro e mudar um pouco essa falta de união que rola também. Antigamente, todo mundo se ajudava e quando isso ocorre é muito mais fácil. Hoje existe muito conflito de ego, nego querendo ser mais que o outro e isso não soma nada. Se a gente não fizer pela gente, não é o Kassab que vai sacar (risos). Muitas vezes a gente reclama que não tem clip de RAP na MTV, que não tem RAP na Virada Cultural, só que falta uma mobilização nossa atrás disso, fazer reclamação, realmente correr atrás, porque senão a gente acaba ficando esquecido, jogado de canto mesmo.

Que personagem te influenciou em sua vida?

Malcolm X

Família é… FORÇA, AMOR, MARAVILHA, INSPIRAÇÃO, LIBERDADE, INTERESSE, ALEGRIA.

Parceiros são… ALICERCE

O RAP é… Minha vida!

Trajetória no RAP. Quem confiou no seu trampo e te deu a mão pra subir no palco do RAP?

Aí eu deixo o mérito pra todo mundo que já passou pela família Afrika Kidz Crew, que foi e ainda é estímulo para eu caminhar com os objetivos.

Conselho pra rapaziada que tá começando no RAP?

Levar a rapaziada a sério, ter resistência, procurar sempre estar conhecendo, colando e se informando sobre o RAP e sobre a música no geral também. E claro, não desistir no primeiro tombo, na primeira porta fechada.

O que o RAP fez ou faz por você?

Me fez ter uma visão diferente do mundo, abriu a mente, me fez conhecer muita gente firmeza e me dá muita alegria ao escutar um trampo que eu ache cabuloso e escute o dia todo.

O que você fez ou faz pelo RAP?

Ajudo a organizar batalhas de MCs juntamente da minha crew, Afrika Kidz, todo sábado em frente ao metrô Santa Cruz, a partir das 20h30. E procuro sempre estar ajudando quem mostra interesse em começar a fazer batidas ou quem pede minha opinião em alguma letra que está escrevendo.

Time: Santos Futebol Clube

Religião: Não tenho

Frase: “Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra” – Bob Marley

O que vem por aí? Tá trampando no que?

No momento tô focado no meu cd solo que está sendo gravado no CCJ Cachoeirinha como prêmio de um duelo de MCs no programa Manos e Minas da TV Cultura. E trampando nas minhas batidas também para projetos futuros ou parcerias.

LTA estúdio

Indicações:

Livro: Autobiografia de Malcolm X – Alex Haley

CD da gringa: Novo do Evidence – The Layover. “Só pancada”

CD nacional: Relatos da Invasão – É o gigante

Filme: Filme do Notorius BIG, obrigatório para todo fã de RAP

Myspace: www.myspace.com/beatsltaa

Comentário do blog: Rimas inteligentes, futuro promissor, beats lokos… meu grupo mesmo já usa beats comprados do menino-monstro! Ou seja, recomendo…

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Histórias que os jornais não contam…

“… um cara de um projeto de inclusão social me entrevistou uma vez na rua. Ele perguntou pra mim qual era minha expectativa de vida. Aí eu respondi: nenhuma! Perguntei pra ele se o programa ia me cadastrar e ele me disse que não, porque não poderia me incluir no programa já que eu não tinha expectativa de vida…” – relato de um morador de rua.

Presenciei esse relato no 1° Fórum das Pessoas em situação de rua de Guarulhos, um encontro inédito entre o prefeito Sebastião Almeida e moradores de rua.

A pauta não era minha, sendo assim me pautei para publicar isto no blog. O olhar buscando tangentes em meio a traços de vida. E encontrando relatos de pura discriminação.

Uns acham que tem que mudar… outros sentem dó… e ainda outros nem se comovem mais!

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O que me chamou a atenção nesse relato que abre o post é a dialética, a boa forma de se expressar do declarante.

“Faço parte da paisagem de Guarulhos, não sou considerado uma pessoa”.

“Não me permitiram nem entrar no mercado Extra… a Bauducco não me contratou porque eu tinha problemas com a Justiça (entenda-se passagem policial)”.

Outro protesta…

“Cadê um representante do Ministério do Trabalho na mesa? Não está aqui! Muitos tem profissão, mas cadê o ministério para cadastrar estas pessoas?”

“Duas vezes eu tive arma apontada na cara. Quando falei que não era vagabundo, o guarda civil municipal disse que eu tô na rua, então sou vagabundo.”

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Louvável a atitude do prefeito em se reunir e ouví-los… mas não basta! É preciso dar condições para que eles ao menos tentem sair dessas condições!

Realmente, existem aqueles que querem a mudança… mas sem uma oportunidade, ninguém chega a lugar algum!

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E você, o que sente ou faz quando vê pessoas nessas condições?

PENSE…

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Underground…

A definição de underground é subterrâneo, aquilo que não está às vistas, ou às vezes até está, mas não é feito da maneira que se espera, foge dos padrões.

Segundo o site Wikipedia,underground é uma expressão usada para designar um ambiente cultural que foge dos padrões comerciais, dos modismos e que está fora da mídia. Muito conhecido como Movimento Underground ou Cena Underground.

A cultura underground também pode ser chamada de contra-cultura.

Sendo assim, sem modismos, este blog vai o perfil dos MCs que fazem a cena underground aqui em São Paulo. Aqueles que trabalham nos porões e, por vezes (e muitas delas), fazem trabalhos até melhores dos que estão na mídia atual.

Como se diz na gíria da rua, “do esgoto” onde surgem trabalhos, poesias e rimas que fazem pensar! Do lugar onde a sociedade menos espera e pouco olha…

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Diretamente DA RUA!

Aguardem!

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O Rap chegando no blog…

Pra quem curte a Revolução Através das Palavras (RAP), novidades virão no blogdobarra!

Aos que curtem a cena undergrund…

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Aguardem!

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O imperialismo e sua guerra!

Eu sabia!

Mais cedo ou mais tarde eu escreveria um texto criticando o imperialismo ianque (leia-se Estados Unidos) e seu apreço pela guerra.

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Recebi em meu e-mail números da guerra no Iraque que durou de 2003 a julho do ano passado:

1,1 MILHÃO de iraquianos mortos (leia-se crianças, idosos, mães, pais, trabalhadores, famílias e etc…);

–  33.615 soldados americanos mortos (um Pacaembú quase lotado) em 164 mil ataques das tropas iraquianas contra os americanos;

224 mil feridos que serão indenizados pelo governo americano;

1,8 TRILHÃO de dólares investidos nessa futilidade chamada guerra.

Poderia terminar o post aqui! Mas ainda há mais a se escrever.

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Quem pagará estas vidas dizimadas a troco de orgulho próprio? Quem cobrará de George Bush o valor de investimentos em armamentos enquanto milhões perecem com fome e em situações precárias no mundo todo.

Falta um homem nessa terra que tenha o status para declarar guerra aos países que não alimentarem seu povo, que não der moradia ao seus habitantes, que não der dignidade às famílias.

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Acho que com esses números posso esclarecer os motivos pelos quais NÃO COMO MC DONALD’S, NÃO USO ALL-STAR, REJEITO QUALQUER OBRA QUE ME SIMBOLIZE EXPLICITAMENTE O IMPERIALISMO ASSASSINO.

Não tenho nada contra os americanos, tenho certeza que existem milhões de cidadãos de bem nesse país. E não serei tolo o suficiente de depositar minhas fichas em Barack Obama.

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Não posso ser hipócrita de dizer que sou contra. Acredito sim na mudança, creio (e espero) que ele fará um ótimo mandato. Mas nem que ele morresse governando aquele país, seria capaz de reparar o estrago feito nessas vidas.

20060730-guerra-05Que Bush tenha a chance de reconhecer seus erros e que Deus possa achar misericórdia para perdoá-lo, porque agora… o estrago já foi feito!

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E.M.I.C.I.D.A. – Mixtape Monstro!

O monstro do freestyle E.M.I.C.I.D.A. (Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte) finalmente saciou a sede de rap bom que a cena estava. Não menosprezo os demais grupos, mas o cara é sensacional.

Antes de mais nada: http://www.vozdarua.com.br

Site que faz um especial muito bom com Emicida durante o mês de Maio… Confiram. Parabéns ao Mamuti, Rafaela Oliveira pela entrevista e aos demais colaboradores (que desconheço, mas não menosprezo)

Emicida

Diga-se de passagem que o cd do KAMAU (Non Ducor Duco) é impagável, bem como o novo do Pentágono (Natural), este último que adquiri este fim de semana junto ao do Emicida.

O título do cd já mostra a personalidade do MC: “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe…” Se ele considera isso, imagina onde vai chegar após a mixtape!

arte_mixtape_EMICIDAUm trabalho da “rua” por quem conhece ela (me desculpem os críticos, mas o português da rua é assim). São 25 faixas de musicalidade, rimas surpreendentes, poucas e ótimas participações e muita humildade.

Frase para minha namorada ao adquirir o cd, que vem em um envelope de papelão, gravado em mídia comum, porém numerado e com preço sugerido (por conhecer o valor de seu trabalho): “CD bom é isso aqui, o mais humilde por fora, o mais loko por dentro”.

Estou há 3 dias virado ouvindo o cd de ponta a ponta… faixas conhecidas de muitos já, como Triunfo, Sozim, Só isso (com arranjo completo),  Ela Diz, A cada Vento, Cidadão (em primeira mão no programa Freestyle – http://www.programafreestyle.com), Soldado sem Bandeira e Vai ser Rimando… Pelo menos essas eram as que eu conhecia!

Surpreendente em cada rima, vou citar as faixas novas que mais se destacaram aos meus ouvidos que dormem e acordam ouvindo o trampo novo… Pra quem acompanha o trampo do nego, valew (MUITO) a pena à espera…

E como o Kamau disse: “O Emicida é o futuro do RAP”. Então estamos bem servidos… e haja inspiração pra escrever depois disso!

Faixa 06 – Ainda ontem (com Rashid, Projota e Fióti)

Rima simples, falando da valorização de cada rima, inspiração e o momento único que cada sessão de improviso. “Cada uma como se fosse a última e cada sessão com o calor da primeira” (Rashid)

E a levada muito loka e sossegada do beat e refrão! Além disso, a rima tranquila e leve do anfitrião fecha a rima perfeita.

“Trago na história, pergunta pro tempo / Eu trouxe na alma a essência que eles buscam no sample” (Emicida)

Faixa 08 – Só isso

Essa não é nova, mas a frase de início é monstro: “Um sábio dizia que você deve comprar arroz e flores: arroz pra viver e flores pra ter pelo que viver”

E a poesia da rua é só pra quem entende ela (desculpem de novo)

Faixa 09 – Vô busca minha fulô

Originalidade ao extremo ao descrever em rimas cotidianas o amor. Em apenas 01 minutos e 24 segundos.

Faixa 21 – Hey Rap

Trocar idéia com o Rap é insano?

Pra quem vive o dia inteiro ouvindo Rap, respirando Rap, vivendo Rap, sabe o que é isso… A luta diária de quem só vive pra manter esse sonho vivo!

E o trocadilho com a história do Rap (que não foi novidade, mas no under foi) foi loka! Soube usar bem os reais!

Faixa 24 – Eu tô bem

Essa é brilhante… manja aquelas rimas comuns reunidas? Pensamentos que vem na calçada, no busão? É isso! Não, não é a música, mas as rimas desse som muito monstro.

Fora o refrão com uma levada suave… Eu garanto!

“Não preciso de um boné de 500 conto / preciso de um bone que eu gosto e pronto”

“Tipo: Jaime, o menino está com sede e nós não temos laranjas” – Hhuahuahuahuahuahau

A história da gravadora mostra que o cara é real… E no aeroporto:

“Destaque no aeroporto, estranho no ninho / Moça, tá olhando o quê? Faz o check-in dos irmãozin / Sou o Emicida da Rinha / tá vendo aquelas pegadas de barro no tapete vermelho? É minha”

Vou falar o que? Deixa pra lá!

Faixa 25 – Orra

Essa devia abrir o cd! Minha única crítica. Aqui a história do guerreiro… se você ouvir vai entender porque considero o cara guerreiro!

Prega o respeito aos pais, valorização daquilo que ele não teve, quem sobreviveu!

“Eu já passei fome, já apanhei calado / já me senti sozinho, já perdi uns aliados / eu já dormi na rua, fui desacreditado / já via a morte de perto, um cano engatilhado / eu já corri dos homi, bati nos ****** / quase morri de frio, eu já roubei mercado / já invejei quem tem pai, já perdi um bocado / Eu sofri por amor, eu já vi quase tudo chegado”

Curtiu os trechos? Corre e compre o seu… serão os R$10 mais bem investidos em música e inovação que você terá feito nos últimos anos!

E ao MC, 100 palavras!

É isso!

Categorias:R.A.P.

O lado triste da vida real

Para conhecer realmente Guarulhos não basta viver 23 anos na cidade. É preciso conhecer as periferias desse município que não para de crescer, fato que, às vezes, causa tristeza!

A pauta era sobre desapropriação de casas localizadas em dois bairros da periferia da cidade: Jardim Nova Portugal e Jardim Regina, ambos localizados às margens do final da pista de taxiamento do Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Do alto do morro, uma visão privilegiada. Mas, se observarmos bem, no fim da pista, aviões abandonados à espera de um destino: a sucata!

Descemos uma rua de terra (repórter e o fotógrafo-motorista Edu Pinto, pessoa fantástica, diga-se de passagem) e avistamos uma senhorinha de rosto cansado na calçada observando crianças bem pequenas se divertirem com suas bolinhas de gude no único pedaço de asfalto próximo, a entrada da garagem.

Pergunto a ela sobre a desapropriação e o que seriam 10 minutos de reportagem tornou-se quase meia hora de desabafo.

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“Como é o seu nome, senhora?”, questiono.

“Maria Izabel dos Santos”, ela me responde.

“Com Z ou com S?”, replico.

“Deixa que eu escrevo pra você”, e toma o bloquinho de anotações de minha mão, demorando quase 30 segundos para desenhar com muita dificuldade as letras que descrevem “errado” seu nome: Izabele.

Confirmo o nome como Izabel mesmo e dou início à conversa. Informações vão, histórias também, até que, quando finalmente consigo cortar a conversa, ela segura minha mão, olha atentamente nos meus olhos e me pede:

“Posso lhe contar um segredo? Mas isso você não pode publicar”.

Como preza a ética do bom jornalismo, preservo a informação da reportagem do jornal (não daqui, pois devido ao alcance do blog e à acessibilidade dos possíveis agentes de represálias a esta humilde senhora,  sua identidade será resguardada com certeza).

“Pode confiar querida, o que é?”, pergunto curioso por tamanha apreensão.

“Tô cansada de ver gente morrer, queria logo sair daqui!”, desabafa!

Me veio naquela hora a sensação daqueles momentos em que o mundo para, o ar falta, o coração aperta e o chão desaparece. Fiquei sem reação mediante aquela senhora que quando lhe perguntei a idade, mal soube me informar.

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“Sou de 1938 meu filho”. Faço minhas contas e soube que possui 71 duros anos.

“Perdi meu marido, meu filho, o vizinho…” e não sei mais quem, até me perdi… “assassinados. Tenho essa perna ruim, problema de coração, hérnia, sou cega de uma vista”… me perco de novo em meio a tantos problemas.

O que me chama a atenção em meio a tantos problemas e sofrimentos vividos: “Filho, eu sou evangélica, tá? Jesus está comigo, apesar de tudo isso, sei que Ele cuida de mim pra eu passar por tudo isso”, afirma com toda a sua fé.

Que amor!

Detalhe curioso: a vida é tão sofrida, tão precária, que sua neta, no início da entrevista, entrou e um minuto depois, saiu com seu arroz e feijão em um pote de plástico (o impopular tupperware), deu duas colheradas e, distraída que criança é, deixou o pote no sofazinho, no sol, e foi brincar com sua amiguinha (talvez parente) a um metro dali. Em um instante, premeditado, o cachorrinho enfiou o focinho no pote e devorou seu alimento em 30 segundos.

Quando se deu conta, a comida já fora. Deu três socos nervosos no lombo do bichinho, puxou suas orelhas, mas nada afastava o cãozinho de seu cobiçado almoço. Por fim, desistiu. Sem chorar!

A avó, ao lado, pouco se importa. Mais importante era a presença de pessoas que podiam ouví-la (o fotógrafo e eu).

Foi difícil, mas estava ali a trabalho e, apesar da vontade de permanecer horas dando atenção àquela senhorinha, fui obrigado a me despedir. Impossível dizer tchau, deixei a ela algo maior:

“Deus te abençõe senhora!”

“Amém”, respondeu.

Entre bençãos e palavras perdidas, fomos ao encontro de outras histórias… pessoas que relataram viver no mesmo local há 31 anos… e nunca viram asfalto em sua rua.

Mas estas são outras histórias. Outro dia eu conto!

Créditos foto: Edu Pinto (se preciso, negocio a compra destas fotos contigo depois Dú!!!)

Categorias:Textos