Início > Textos > O lado triste da vida real

O lado triste da vida real

Para conhecer realmente Guarulhos não basta viver 23 anos na cidade. É preciso conhecer as periferias desse município que não para de crescer, fato que, às vezes, causa tristeza!

A pauta era sobre desapropriação de casas localizadas em dois bairros da periferia da cidade: Jardim Nova Portugal e Jardim Regina, ambos localizados às margens do final da pista de taxiamento do Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Do alto do morro, uma visão privilegiada. Mas, se observarmos bem, no fim da pista, aviões abandonados à espera de um destino: a sucata!

Descemos uma rua de terra (repórter e o fotógrafo-motorista Edu Pinto, pessoa fantástica, diga-se de passagem) e avistamos uma senhorinha de rosto cansado na calçada observando crianças bem pequenas se divertirem com suas bolinhas de gude no único pedaço de asfalto próximo, a entrada da garagem.

Pergunto a ela sobre a desapropriação e o que seriam 10 minutos de reportagem tornou-se quase meia hora de desabafo.

EDU_3091

“Como é o seu nome, senhora?”, questiono.

“Maria Izabel dos Santos”, ela me responde.

“Com Z ou com S?”, replico.

“Deixa que eu escrevo pra você”, e toma o bloquinho de anotações de minha mão, demorando quase 30 segundos para desenhar com muita dificuldade as letras que descrevem “errado” seu nome: Izabele.

Confirmo o nome como Izabel mesmo e dou início à conversa. Informações vão, histórias também, até que, quando finalmente consigo cortar a conversa, ela segura minha mão, olha atentamente nos meus olhos e me pede:

“Posso lhe contar um segredo? Mas isso você não pode publicar”.

Como preza a ética do bom jornalismo, preservo a informação da reportagem do jornal (não daqui, pois devido ao alcance do blog e à acessibilidade dos possíveis agentes de represálias a esta humilde senhora,  sua identidade será resguardada com certeza).

“Pode confiar querida, o que é?”, pergunto curioso por tamanha apreensão.

“Tô cansada de ver gente morrer, queria logo sair daqui!”, desabafa!

Me veio naquela hora a sensação daqueles momentos em que o mundo para, o ar falta, o coração aperta e o chão desaparece. Fiquei sem reação mediante aquela senhora que quando lhe perguntei a idade, mal soube me informar.

EDU_3093

“Sou de 1938 meu filho”. Faço minhas contas e soube que possui 71 duros anos.

“Perdi meu marido, meu filho, o vizinho…” e não sei mais quem, até me perdi… “assassinados. Tenho essa perna ruim, problema de coração, hérnia, sou cega de uma vista”… me perco de novo em meio a tantos problemas.

O que me chama a atenção em meio a tantos problemas e sofrimentos vividos: “Filho, eu sou evangélica, tá? Jesus está comigo, apesar de tudo isso, sei que Ele cuida de mim pra eu passar por tudo isso”, afirma com toda a sua fé.

Que amor!

Detalhe curioso: a vida é tão sofrida, tão precária, que sua neta, no início da entrevista, entrou e um minuto depois, saiu com seu arroz e feijão em um pote de plástico (o impopular tupperware), deu duas colheradas e, distraída que criança é, deixou o pote no sofazinho, no sol, e foi brincar com sua amiguinha (talvez parente) a um metro dali. Em um instante, premeditado, o cachorrinho enfiou o focinho no pote e devorou seu alimento em 30 segundos.

Quando se deu conta, a comida já fora. Deu três socos nervosos no lombo do bichinho, puxou suas orelhas, mas nada afastava o cãozinho de seu cobiçado almoço. Por fim, desistiu. Sem chorar!

A avó, ao lado, pouco se importa. Mais importante era a presença de pessoas que podiam ouví-la (o fotógrafo e eu).

Foi difícil, mas estava ali a trabalho e, apesar da vontade de permanecer horas dando atenção àquela senhorinha, fui obrigado a me despedir. Impossível dizer tchau, deixei a ela algo maior:

“Deus te abençõe senhora!”

“Amém”, respondeu.

Entre bençãos e palavras perdidas, fomos ao encontro de outras histórias… pessoas que relataram viver no mesmo local há 31 anos… e nunca viram asfalto em sua rua.

Mas estas são outras histórias. Outro dia eu conto!

Créditos foto: Edu Pinto (se preciso, negocio a compra destas fotos contigo depois Dú!!!)

Categorias:Textos
  1. 08/05/2009 às 10:05

    Incrível! Em pensar que queremos tanto e muito vivem como se nem existissem pra sociedade!

    A grande e cruel realidade é que pessoas assim são notadas sim, em épocas de eleição! E aí delas que não cumpram com o seu ‘dever de cidadão’.

    Em meio a tanta história para contar, é uma mulher de virtude e reconhece: ‘Jesus está comigo, apesar de tudo isso, sei que Ele cuida de mim…’

    Que DEUS a abençoe!

    PS. belíssima matéria Danilo, meus Parabéns!

  2. Atevir
    13/05/2009 às 00:01

    Bela e triste matéria. Parabéns Danilo.

    É a realidade cruel desse mundão onde você vale o que tem. Mas, apesar de tanto sofriemnto essa senhora tem fé em Cristo. No mundão ela pode ta esquecida, mas concerteza ela será reconpensada pelo nosso SENHHOR. Pois muitos estão ganhando com o seu sofrimento e isso não quer dizer que quem está ganhando com seu sofriemnto está sendo abençoado por DEUS. Lá na frente a justiça será feita, e a justiça divina não falha.

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: