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Archive for junho \29\UTC 2011

O polêmico legado do Itaquerão

Não quero e não vou entrar no mérito financeiro da concessão fiscal que a Prefeitura de São Paulo visa promover ao Sport Club Corinthians Paulista com a construção do estádio no bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo.

Itaquerão, Fielzão, Arena Corinthians, que seja, mas uma questão que está sendo levantada por oposicionistas à forma como a obra está sendo conduzida é completamente leviana.

Vejo munícipes e até vereadores citando que o legado que o estádio do Corinthians deixará na Zona Leste é comparável à situação vivida pelos cariocas com o estádio João Havelange, popularmente conhecido como Engenhão, e também aos estádios da África do Sul, construídos para a última Copa do Mundo, em 2010.

Calma lá. Vamos fazer alguns breves comparativos. O Corinthians é a equipe mais popular de São Paulo, com maior torcida em todo o Estado e a segunda maior torcida do País, atrás somente dos torcedores flamenguistas.

O Engenhão foi concedido ao Botafogo, clube que, infelizmente, deixou de ser uma das principais forças do futebol carioca há tempos. O estádio é mal localizado, sem muitas opções de transporte a quem não possui um veículo particular e está sob a responsabilidade de uma equipe que não possui uma torcida tão fanática como o Flamengo, por exemplo, que lota facilmente o Maracanã.

Já na África do Sul, já era esperado que os estádios construídos para a Copa do Mundo tornar-se-iam elefantes brancos. Isso porque o futebol (soccer) nunca foi o esporte mais popular no país africano. Lá, o esporte que mais chama a atenção da população é o críquete e o rúgby, que tem campos específicos para sua prática.

Diferente disso, o Itaquerão será a casa do Corinthians, na região populosa de Itaquera, conhecido reduto de torcedores corinthianos. É impossível imaginar que um estádio desse vá ficar parado ou não vá lotar, visto que o alvinegro de Parque São Jorge é uma das equipes com maior média de público dos campeonatos que participa.

Num chute baixo, ao menos oito jogos mensais são disputados pelo Timão, sendo considerado que destes, quatro seriam em casa. Não haverá fluxo de pessoas no comércio local? Uso de transporte público na região? E os estacionamentos da região, não vão faturar? Até os ambulantes vão filar uma boia com a venda de produtos não oficiais. E as casas, não serão valorizadas? E o transporte, não será melhorado? E as vias, não serão aperfeiçoadas para receber tal público?

Então, não será um elefante branco, isso jamais! Será muito utilizado. Mas, como adiantei no início, não vou entrar no mérito financeiro da questão, apenas tenho a certeza de que um estádio desse porte para um clube do tamanho do Corinthians não pode ser considerado um equipamento com prazo de validade.

Categorias:Esportes, Textos

Obrigado MÃE!

Eu era bem novinho e você era a mulher mais bonita que eu já conheci. Em minha fraca memória, meu primeiro ‘selinho’ foi em você.

Diziam que eu era a sua cara. Mas detestava quando suas amigas falavam que eu parecia uma menina.

Me lembro vagamente, mas contava em detalhes a história de quando me perdi no mercado em frente de casa. Ao segurança, chorando, explicava que você era bonita e tinha o cabelo assim (gesticulando em referência a uma arvorezinha, para representar seu cabelo cacheado).

Era você que me vestia com aquele macacãozinho ‘horrível’ com um palhacinho na barriga, com as roupas sociais e me fazia parecer um homenzinho.

Quando o pai filmava minha irmã e eu, você mandava eu beijar a Evelyn, mas eu não entendia. Como eu poderia entender que dois dedos indicadores indo na direção um do outro significava um pedido de beijo?

Mesmo eu dizendo que detestava, dizia que eu estava lindo quando me vestia de social…

Lembro claramente de suas unhas sempre grandes e bem feitas. Lembro de você em casa, colocando seus sapatos de diferentes formatos para dançar em frente ao espelho. E eu e a Evy pequenininhos assistindo você dançar em casa.

Você acordava a Evy e eu de uma maneira peculiar. Seu grito imitando o Tarzan ecoava pelos cômodos da casa, mas acho que os vizinhos nunca escutavam. Era algo mágico que você tinha, sabia nos divertir sem abrir nossa intimidade para os vizinhos.

Com você eu aprendi meu endereço completo, com CEP, para o caso de eu me perder algum dia. E ainda pequenininho, apanhei depois que falei todo o endereço dentro do ônibus para uma mulher que me achou bonitinho e puxou papo.

Aprendi a pegar o chinelo – sem escândalos -, abaixar as calças e deixar você me ensinar na palmada. Hoje, podem falar que você era exagerada, mas eu fui uma criança supereducada por isso. Eu nunca esperneei na rua por nada, você me ensinou.

No prézinho, me dava banho e me vestia ainda dormindo. Incrivelmente, a senhora tinha o dom de cuidar de mim.

Stevie Wonder, Ray Conniff, Ivan Lins… ah, o Ivan Lins. Como eu ouvi suas músicas em minha infância. Você o amava, elogiava cada composição sua. Eu pensei em um dia tentar promover um encontro entre você e ele. Mas não deu tempo…

Na adolescência, em minha fase rebelde, me revoltei com seus músicos. Pouco depois caí na real e percebi que Djavan, Milton Nascimento, o próprio Ivan Lins são mestres, suas músicas me encantam… e hoje me fazem sentir ainda mais saudade de ti.

Quando tinha poucos minutos para tomar banho, me arrumar, comer e sair pra ir para a universidade, a senhora preparava a comida em incríveis 5 minutos. E nunca errou a mão, ela tinha o mesmo gosto delicioso de sempre.

Foi a senhora que tomou a iniciativa de conhecer a Jesus. Me levou ainda pequeno à Igreja… insistiu quando me tornei adolescente, conversava comigo sobre a volta de Jesus. Anos depois, eu estava na Igreja, firme, e te ajudando a se firmar de novo, mas com orgulho pelo caminho que havia me colocado.

A senhora não aprovou todos os meus namoros, mas nunca deixou de me ensinar como eu deveria tratar uma mulher. Nunca tive coragem de brigar com alguma namorada no telefone com a senhora por perto.

Mesmo com tantas brigas, discussões, desaprovações e diversos problemas pelos quais um relacionamento passa, a senhora foi uma companheira e tanto para meu pai. Sempre foi a mulher que ele esperava, decidida, amorosa, cuidadora… que saudade!

Quando ingressei na carreira de rapper gospel, a senhora torceu o nariz. Sei que a senhora nunca entendeu como seu filho foi se encontrar com um ritmo tão distante de casa, o RAP. Sei que a senhora nunca “gostou de verdade” das minhas músicas, mas sempre entendeu o peso dessa missão.

Me chamava de ‘repeiro’ até ontem… Mas um dia aprendeu a cantar “uma” música minha e cantava “O caminho não é longo e você tem que escolher”. Tudo errado, eu sei, mas a ordem dos fatores não importava!

Nem as fortes e intensas dores do câncer te impediam de limpar a casa, tirar o pozinho, arrumar as pedrinhas, olhar seu peixinho e vibrar com ele passando no meio da pedrinha do aquário.

A gente brigava contigo, mas sua força sempre foi maior do que seu corpo podia aguentar.

E a menina do Cocaia se tornou a mulher mais forte, guerreira e vencedora que já conheci na vida!

Sei que muitas outras lembranças ficaram para trás, algumas extremamente importantes, mas eu não teria tempo e espaço para recordar cada pedacinho de nossa história que caminhou junta até meus 25 anos.

E nesta quinta-feira, 9 de junho, você partiu…. orando, clamando a Deus, batalhando até na partida, dizendo ser de Jesus e voltando, 46 anos depois, aos braços do Pai.

No seu último ato, me deu uma última lição: a família é o mais importante e a senhora lutou, fez questão de esperar até que estivéssemos juntos o pai, a Evy, eu e a senhora para seu último suspiro.

Depois de sua partida, lembrei o quanto é gostoso chorar por alguém. E choro de novo, não pela tristeza de te perder, mas pela dor tão difícil da saudade

Para mim era a mãe, para as amigas era a Rita, para os demais sempre foi Dona Rita…

Muito obrigado por 25 anos inesquecíveis… e, finalmente, descanse nos braços de Deus!

Beijos, te amo mãe!

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Papai Noel não apareceu…

Para tirar a poeira do blog, vai um texto escrito há alguns anos atrás, quando ainda tinha um velho blog no portal IG. Fora de época, mas para relembrar a descoberta do triste mundo em que vivemos!

No dia 24 de Dezembro eu contrariei o que minha mãe mandou. Neste ano ela disse pra eu ir dormir cedo e parar com essa besteira de Papai Noel, pois ele só existe para os ricos.

Eu não acreditei nisso, porque o que eu ouço falar é que o Papai Noel é pra todos, que ele é como Jesus que não faz acepção de pessoas. Há 3 anos que sempre o espero e no dia seguinte minha mãe dizia que ele havia se esquecido e que ano que vem viria, por isso eu fingi que ia dormir e quando o silêncio tomou conta da casa eu me levantei e corri a me esconder atrás do sofá só pra ver o velho Noel chegar. Não ia assustá-lo e dizer que o tinha visto, só queria guardar pra mim esta linda lembrança, o dia em que minha mãe se enganou pois não acreditava na bondade do velhinho.

E lá estava eu, olhando e esperando ver a figura de um senhorzinho gordo e barbudo trazendo meu skate que eu tanto sonhava e que eu pedi, detalhado na cartinha que enviei ao Correio.

As horas passavam e eu fui me cansando. No alto de meus 7 anos agora sei porque meu irmão não deixa eu sair com ele, porque ele sempre diz que vai voltar muito tarde e quando volta já não é tarde, é cedo. Não aguento, vou tirar um cochilo e daqui a pouco eu acordo.

   …

Acordei assustado com minha mãe me perguntando o que eu fazia dormindo sentado do lado do sofá. Contei a verdade pra ela e ela com lágrimas nos olhos me colocou no seu colo e começou a me contar no que ela acreditava.

Não sei porque, mas aquilo me causou uma sensação que eu nunca tinha sentido antes, era uma mistura de raiva com tristeza. Mais tarde descobri que isso se chama revolta.

Saber que o Papai Noel não existia eu não acredito, mas agora entendo o porque que ele não me trouxe meu skate, mesmo eu sendo um bom menino, mesmo eu passando de ano direto, mesmo sendo esforçado o ano todo. Nada disso compra presente, o que manda aqui é o dinheiro.

Minha revolta foi maior ao ver que enquanto eu saía para o semáforo de sempre ver se eu conseguia um dinheirinho pra ajudar minha mãe, eu vi uma menina de vestido rosa, cheia de presilhas coloridas nos cabelos loiros e lisos, junto com um moço que parecia ser seu pai, de calça e camisa social, os dois correndo, ele na bicicleta dele, ela na bicicleta dela, que me parecia um tanto quanto “tirada do plástico agora”.

Mais à frente, na pracinha, um pai e um filho chutam uma bola que acaba de ganhar seu primeiro arranhão. Sei que eles serão uns dos que vão fechar o vidro quando eu for pedir uma ajuda.

Quem sabe um dia, se eu conseguir um empreguinho ou o emprego da minha mãe melhorar, eu consiga realizar o meu desejo de ser o meu Papai Noel, de me dar o meu skate. Nem que eu já seja velho demais pra ele, mas deixarei no meu quarto, pra saber que um dia “eu” me importei comigo mesmo.

Não vou deixar meu filho se encantar com esta falsidade, quando ele vier pela primeira vez falar sobre Papai Noel comigo, vou fazê-lo conhecer a realidade que se enquadra: que esta história ridícula e hipócrita de Papai Noel é mentira e que ele terá que se acostumar a viver de acordo com nossas condições. Espero um dia poder dar o skate, a bola e a bicicleta pra meu filho, mas vou deixar bem claro que “eu” comprei, que fui “eu” quem trabalhou pela felicidade dele e que ele não deve creditar alegria nenhuma para este velho idiota.

Ele ainda vai perceber isto porque se eu conseguir dar esta alegria, ele vai perceber que milhares de crianças pobres serão “esquecidas” pelo velho Noel.

Um dia todos vão entender que o Papai Noel não conhece o caminho da favela, que ele teme entrar na favela com medo de uma bala perdida ou que ele não se importa com as crianças da favela porque quem paga e paga bem pelos seus serviços são outras pessoas.

Entenderão que o Papai Noel não sobe o morro…

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