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Papai Noel não apareceu…

Para tirar a poeira do blog, vai um texto escrito há alguns anos atrás, quando ainda tinha um velho blog no portal IG. Fora de época, mas para relembrar a descoberta do triste mundo em que vivemos!

No dia 24 de Dezembro eu contrariei o que minha mãe mandou. Neste ano ela disse pra eu ir dormir cedo e parar com essa besteira de Papai Noel, pois ele só existe para os ricos.

Eu não acreditei nisso, porque o que eu ouço falar é que o Papai Noel é pra todos, que ele é como Jesus que não faz acepção de pessoas. Há 3 anos que sempre o espero e no dia seguinte minha mãe dizia que ele havia se esquecido e que ano que vem viria, por isso eu fingi que ia dormir e quando o silêncio tomou conta da casa eu me levantei e corri a me esconder atrás do sofá só pra ver o velho Noel chegar. Não ia assustá-lo e dizer que o tinha visto, só queria guardar pra mim esta linda lembrança, o dia em que minha mãe se enganou pois não acreditava na bondade do velhinho.

E lá estava eu, olhando e esperando ver a figura de um senhorzinho gordo e barbudo trazendo meu skate que eu tanto sonhava e que eu pedi, detalhado na cartinha que enviei ao Correio.

As horas passavam e eu fui me cansando. No alto de meus 7 anos agora sei porque meu irmão não deixa eu sair com ele, porque ele sempre diz que vai voltar muito tarde e quando volta já não é tarde, é cedo. Não aguento, vou tirar um cochilo e daqui a pouco eu acordo.

   …

Acordei assustado com minha mãe me perguntando o que eu fazia dormindo sentado do lado do sofá. Contei a verdade pra ela e ela com lágrimas nos olhos me colocou no seu colo e começou a me contar no que ela acreditava.

Não sei porque, mas aquilo me causou uma sensação que eu nunca tinha sentido antes, era uma mistura de raiva com tristeza. Mais tarde descobri que isso se chama revolta.

Saber que o Papai Noel não existia eu não acredito, mas agora entendo o porque que ele não me trouxe meu skate, mesmo eu sendo um bom menino, mesmo eu passando de ano direto, mesmo sendo esforçado o ano todo. Nada disso compra presente, o que manda aqui é o dinheiro.

Minha revolta foi maior ao ver que enquanto eu saía para o semáforo de sempre ver se eu conseguia um dinheirinho pra ajudar minha mãe, eu vi uma menina de vestido rosa, cheia de presilhas coloridas nos cabelos loiros e lisos, junto com um moço que parecia ser seu pai, de calça e camisa social, os dois correndo, ele na bicicleta dele, ela na bicicleta dela, que me parecia um tanto quanto “tirada do plástico agora”.

Mais à frente, na pracinha, um pai e um filho chutam uma bola que acaba de ganhar seu primeiro arranhão. Sei que eles serão uns dos que vão fechar o vidro quando eu for pedir uma ajuda.

Quem sabe um dia, se eu conseguir um empreguinho ou o emprego da minha mãe melhorar, eu consiga realizar o meu desejo de ser o meu Papai Noel, de me dar o meu skate. Nem que eu já seja velho demais pra ele, mas deixarei no meu quarto, pra saber que um dia “eu” me importei comigo mesmo.

Não vou deixar meu filho se encantar com esta falsidade, quando ele vier pela primeira vez falar sobre Papai Noel comigo, vou fazê-lo conhecer a realidade que se enquadra: que esta história ridícula e hipócrita de Papai Noel é mentira e que ele terá que se acostumar a viver de acordo com nossas condições. Espero um dia poder dar o skate, a bola e a bicicleta pra meu filho, mas vou deixar bem claro que “eu” comprei, que fui “eu” quem trabalhou pela felicidade dele e que ele não deve creditar alegria nenhuma para este velho idiota.

Ele ainda vai perceber isto porque se eu conseguir dar esta alegria, ele vai perceber que milhares de crianças pobres serão “esquecidas” pelo velho Noel.

Um dia todos vão entender que o Papai Noel não conhece o caminho da favela, que ele teme entrar na favela com medo de uma bala perdida ou que ele não se importa com as crianças da favela porque quem paga e paga bem pelos seus serviços são outras pessoas.

Entenderão que o Papai Noel não sobe o morro…

Categorias:Textos
  1. Fernanda
    23/06/2011 às 22:15

    Não sobe mesmo no morro…morei durante um bom tempo em um morro em SBC e sempre achava que o papai noel pudesse vir com um presente que sempre desejei, mais pelas condições não pude ter, com quase 8 anos em um dia encherguei a dura realidade, e de que o papai noel não existia, ganhava apenas aquilo minha mamãe tinha condições de comprar.Então imaginei, coitada das crianças que até hj esperam pela vinda do papai noel com o tão e esperado presente e que para alguns podem até chegar….mais para outros nunca chegam.

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