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Archive for fevereiro \28\UTC 2012

O que eu vi na Argentina e trouxe para contar – Parte IV

Protestos

Aqui em São Paulo, alguns pichadores justificam suas ações como uma forma de protesto, mas na verdade não falam nada, só promovem suas gangues.

Em Buenos Aires não existe isso de sujar muros para promover grupos. Mas as paredes tornam-se murais de protestos, quero dizer protestos mesmo. São espaços para reivindicar melhorias na educação, contra o governo, promover luta por moradias, justiça social. E não é nada feito com uma latinha de spray, são carimbos, bem feitos, para que todos entendam o que está escrito.

Ao invés de rabiscos, protestos...

PS: Ah, as ruas também são utilizadas para isso. Em plena 9 de Julio (a Paulista deles), em cada faixa de pedestres estão escritos diferentes formas de reivindicações.

 

Gracias por la propina

Calma, eles não são caras-de-pau. Propina em castelhano significa gorjeta… mas que é suspeito, é!

Calma, a propina lá é só a gorjeta!

Slogan estranho!

Não sei se vocês terão a mesma visão que eu tive, mas o slogan da Argentina é horroroso! No Brasil, nosso slogan é ‘País rico é país sem pobreza’, o que ressalta a intenção do governo federal de acabar com a miséria por aqui.

Na Argentina, o slogan do governo federal é “Argentina, um país de boa gente” (!).

Por acaso você faria propaganda de um país de má pessoas? Muito mal elaborado...

Minha impressão é que eles estão tentando mudar uma imagem de que o argentino é má pessoa. Ninguém chega e fala: “fica tranquilo, minha casa tem boa gente!”. É esperado que as pessoas sejam de bem, errado é quando elas são más. Enfim… reprovado!

O velho portunhol…

Lá pelas tantas da madrugada, estou eu ‘sapeando’ pelos canais da TV argentina em busca de jogos da NBA (eles transmitem mais jogos do que nós) ou de mais um episódio dos Simpsons (eles são absurdamente mais fanáticos do que nós), quando me deparo com o Fala que eu te Escuto. Isso mesmo, o programa de auto-ajuda da Igreja Universal passa lá também.

Mas vá lá, né… pedidos de oração, testemunhos, e o pastor pregando a Palavra quase que em português! Arranhando um espanhol fraquinho. Bom, a intenção era boa…

 

No próximo e penúltimo post, contarei da maravilhosa experiência que tive no Café Tortoni, o velho preconceito religioso e a falta de ideias práticas dos hermanos…

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O que eu vi na Argentina e trouxe para contar – Parte III

Chegamos a metade dos posts sobre minhas impressões de Buenos Aires e dos argentinos…

 

Tentativa de assalto em plena Avenida Paulista deles

Lamentável, mas em qualquer lugar estamos sujeitos a isso. Por pouco, meu pai e eu quase fomos assaltados. Se não tivéssemos um pouco mais de sangue frio e pensamento rápido, alguns dólares teriam ficado nas mãos de dois sujeitos na Avenida 9 de Julio, a Paulista deles.

Na Avenida 9 de Julio, instantes antes do susto

Na Avenida 9 de Julio, instantes antes do susto com meu véio!

Mas nada passou de um susto…

 

O País das avenidas largas

Controvérsias a parte, a Argentina ainda possui a avenida mais larga do mundo: a 9 de Julio. São 140 metros de largura divididos em 12 faixas centrais e outras seis laterais. Não dá pra atravessar em um só semáforo, dependendo do passo é preciso aguardar até três semáforos.

Oficialmente, a Eixo Monumental de Brasília tem 250 metros de largura e seria maior, mas isso graças a um canteiro gigante entre as faixas.

Avenida 9 de Julio, 140 metros de largura divididos em 18 faixas

Avenida 9 de Julio, 140 metros de largura divididos em 18 faixas (ao fundo o Obelisco)

E não para somente na 9 de Julio. A Avenida de Mayo e muitas outras são largas na Terra do Sol. Aliás, quase todas, poucas avenidas são estreitas como a Tiradentes da minha linda e amada Guarulhos.

 

Questão cultural

As ruas de Buenos Aires têm pouquíssimo lixo. Nem bitucas de cigarro são comuns. E pra mim está claro que isso é uma questão cultural. Lá é costume usar da maneira correta as lixeiras de plástico em toda a cidade, não utilizar como esconderijo de bombas e brinquedos para marmanjos.

E também existem tambores enormes para a coleta seletiva de lixo nas ruas. Assim, há opção para quem quer colaborar para um mundo melhor. E não são poucos tambores. São enormes, chamativos, ou seja, não dá pra dizer que não viu…

 

Assento para pessoas altas

Puerto Madero, um bonito bairro de Buenos Aires, com um porto no meio dos prédios… e um simpático ‘mini-metrô’, que percorre uma avenida grande de ponta a ponta por um valor ínfimo.

Minha cara de espanto quando me deparo com isso:

Assento para pessoas altas ou encosto para quem está em pé

Assento para pessoas altas ou encosto para quem está em pé

Que nada mais é do que um assento para pessoas altas ou quem está em pé… ou seja, você encosta o pandeiro ali e viaja confortavelmente.

 

Solução para os ciclistas

Em São Paulo, andar de bicicleta é uma aventura. O risco que você corre dividindo as ruas e avenidas com os carros é enorme. Mas na Argentina inventaram algo prático e infalível. Dá uma olhada nisso:

Mureta para proteção da ciclovia

Mureta para proteção da ciclovia no bairro 'La Boca'

Isso é uma muretinha de uns 15cm de altura, ou seja, o carro que se aproximar vai se machucar. E o ciclista fica protegido em seu espaço, tranquilo…

Outra coisa interessante é a diversidade de pontos gratuitos para uso de bicicletas. São 21 pontos espalhados pela cidade. Você pega uma bicicleta gratuita ali e devolve num outro ponto, sem pagar nada!

Quer incentivo maior ao uso de transporte alternativo do que isso?

 

Na próxima segunda-feira, o quarto post… Como diria Sílvio Santos: aguardemmmmmmmmm

Categorias:Textos

Futebol 10, caráter 0!

* Desculpem-me quebrar a sequência da série de posts sobre minhas histórias na Argentina,mas o tema é relevante e necessário…

Luis Suárez, um dos principais atacantes do futebol uruguaio e titular do Liverpool, da Inglaterra. No currículo o título recém-conquistado da Copa América como um dos responsáveis com a Celeste Olímpica, uma passagem memorável pelo Ajax de 2007 a 2011, com uma média de 0,7 gols por jogo.

Graças a ele, o Uruguai chegou à terceira colocação na Copa do Mundo, pois nas quartas de final salvou um gol certo de Gana defendendo a bola em cima da linha com as mãos. Expulso, viu a seleção adversária desperdiçar a cobrança e nas penalidades seu time chegou à semifinal, perdida diante da Holanda.

Patrice Evra, nascido em Senegal e naturalizado francês (como acontece com muitos jogadores na França), fez sua carreira como lateral esquerdo no Monaco e, desde 2006, se firmou como um dos jogadores fundamentais do elenco de Sir Alex Ferguson, no Manchester United.

No currículo recente, más impressões. Como líder nato, tomou as dores do atacante Nicolas Anelka durante a Copa do Mundo de 2010 e comandou uma greve de treinos contra o treinador Raymond Domenech em pleno mundial. Resultado: técnico demitido com a vergonhosa campanha da eliminação na primeira fase e punição aos envolvidos.

Impressões passadas e as histórias de ambos se cruzaram em outubro de 2011, quando Liverpool e Manchester United se enfrentaram na Liga Inglesa. Após um entrevero com a bola rolando, o uruguaio é acusado de ato racista contra Evra ao tê-lo chamado de “negrito” e que “não falaria com negros”.

Apesar de não assumir o erro, Suárez foi punido com oito jogos de suspensão pelo ato medíocre e serviu de exemplo para o mundo da bola que ainda não se posicionou firmemente (leia-se FIFA) contra o racismo no futebol.

E o reencontro de ambos aconteceu neste último final de semana, em partida vencida pelos Red Devils por 2 a 1. Fato é que a tradição inglesa coloca os jogadores perfilados para se cumprimentarem antes da partida iniciar e, justamente quando Suárez e Evra ficaram frente a frente e poderiam ter encerrado essa polêmica, o uruguaio mostrou que o talento que tem com a bola está longe da capacidade de seu cérebro.

Num ato lamentável, Suárez ignorou o francês e não o cumprimentou. Revoltado, Evra protestou, mas o uruguaio já partiu para o aquecimento e esquentou os ânimos no jogo.

Com a bola rolando, Evra bem que tentou, mas seu companheiro de equipe, Rio Ferdinand, atrapalhou um possível contato com Suárez. Ao final da partida, com a vitória de sua equipe, Evra foi à forra e comemorou junto de sua torcida, passando propositalmente em frente a Suárez e vibrando pela vitória.

Compreendida a novela, já passa da hora da FIFA entrar de sola na questão do racismo, afinal, somos seres humanos e não animais para sermos divididos em raças. Se há anos a questão já não era aceitável, que dirá hoje, com a evolução da sociedade e a miscigenação ocorrida em todo o mundo?

Casos como ocorridos com o lateral Roberto Carlos, que foi hostilizado na Rússia, bananas jogadas em gramados e outras atitudes lamentáveis devem ser exemplarmente punidas. Tanto o clube deve ser fortemente orientado, quanto jogadores – tidos como exemplos e que tiverem estas atitudes inaceitáveis como fez Suárez – sofrerem punições pesadas, até com a possibilidade da exclusão do esporte.

Arte: Blog Pernetas

Arte: Blog Pernetas

Já passou da hora da FIFA tomar uma atitude e não adianta tentar defender o uruguaio dizendo que o mesmo se desculpou em comunicado, pois claramente o mesmo teve a chance de comprovar seu arrependimento e dar exemplo, mas foi forçado nos bastidores a não sujar mais o nome do Liverpool, clube de tantas glórias, por sua atitude infantil.

O talento com a bola nos pés nunca vai sobrepor o mínimo de cidadania.

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O que eu vi na Argentina e trouxe para contar… – Parte II

Eles são antipáticos mesmo

Pois é, triste constatação, mas é verdade. Um país com o turismo expelindo como um vulcão e seus habitantes não gostam de ninguém a não ser eles mesmos. O taxista que nos levou do aeroporto de Ezeiza até a 9 de Julio não falou sequer uma palavra e olha que eu tentei puxar assunto.

A cozinheira do hostel nem se preocupava em ser gentil. Queria era saber o número da habitación (quarto) e se era café ou té (chá), sempre com cara amarrada e má vontade extrema, e quantas media-lunas (croissant sem recheio) queríamos (a media-luna é o pão francês deles).

Sem generalizar, encontrei sim argentinos boa-praça, dispostos a falarem da rivalidade Boca-River, a serem gentis com os clientes (Feira de San Telmo), mas em síntese, a maioria parece conviver diariamente com o incômodo mau-humor.

PS: Emanuel, do Bar Bernardo, na esquina da 9 de Julio com a Humberto Yrigoyen. Peçam para serem atendidos por ele, se o encontrarem. Esse vai contra o mau-humor padrão argentino. Absurdamente simpático para os padrões locais.

Arrogância extrema

E eles também acham que sabem tudo. E o melhor é sempre deles. Não, a questão não foi a famosa discussão Maradona x Pelé. Estava eu em uma loja na Calle Florida a sondar o valor da camisa n° 2 da Seleção Argentina quando me deparei com uma crise de arrogância argentina.

A dona da loja, que não se preocupava em dar atenção a nenhum cliente, explodiu quando uma brasileira desavisada admirava uma mini-estátua do cantor de tango Carlos Gardel e perguntou se Gardel ainda estava vivo.

Tudo bem, era algo que devia-se saber, já que Gardel é um expoente do tango, conhecido em todo mundo. Mas a resposta foi atravessada.

“Gardel? Deve estar morando na Colômbia. Você devia ler mais menina, a história é internacional”, ironizou.

Por instantes não entrei louco da vida pra perguntar para aquela “coisa” se ela sabia me dizer quem era Cartola, expoente do samba, já que “a história é internacional”. Mas achei melhor não confrontar, ela ia querer comparar Gardel com Cartola ou qualquer outro e sempre ia se convencer de que o seu escolhido seria melhor. Então deixa ela se fechar no mundinho dela…

Caminito brasileiro

É… quase não acreditei quando caminhava pelas ruas argentinas e ouvi um, ou melhor, vários hermanos cantando “Noza, Noza, azzim voxê mê mata. Ai si eu ti pêgo, ai, ai, si eu ti pêgo”… Meu DEUS!

Pra me sentir ainda mais em casa, fui conhecer Caminito, um aconchegante centro de compras em La Boca, perto do estádio La Bombonera, do Boca Juniors. E ‘caminando’ por um galpão com uma feirinha de tranqueiras, meus ouvidos doem e noto que o ritmo é a base de ‘É o Tchan’, Carrapicho e outros…

E não foi só isso que me perseguiu. Quando o avião deixou Guarulhos, pensei que teria uma semana de folga do hit ‘Ai se eu te pego’, mas bastou chegar no barzinho da esquina pra ver os argentinos arranhando o refrão do bendito do Michel Teló. E todas as caixas de som que encontrei pelas ruas tocavam isso ou tango.

Na próxima segunda-feira vem a terceira parte, com uma tentativa de assalto em plena 9 de Julio e algumas curiosidades culturais dos hermanos…

Categorias:Textos

O que eu vi na Argentina e trouxe para contar… – Parte I

É, o argentino aqui foi pra Argentina. Mais precisamente Buenos Aires, a São Paulo deles (em proporção bem menor, claro!) e, como jornalista tem isso no sangue, não me faltou o papelzinho e a caneta pra anotar algumas coisas que achei interessante revelar de lá.

Não, eu não vou traçar roteiros, pois existem sites especializados nisso. Eu só quero comentar sobre o que vi, vivi e a caneta e o papel me ajudaram a lembrar…

Cheiro e clima

Os primeiros dias foram dias à La Nordeste. Muito calor, chegando a 43°C, coisa que nunca senti em São Paulo (ao menos não me lembro), mas há uma diferença: Buenos Aires tem uma brisa constante, um vento que refresca e reduz a sensação do calor. Deve ser daí a origem de “Buenos Aires” (tá bom, nunca fui bom em piadas).

Evelyn, Pai e eu no 'calor' de Buenos Aires

E BA também tem um cheiro característico. Você chega e nota, é um cheiro que só senti lá… da cidade argentina. Não é agradável, mas passa longe de ser desagradável.

Patriotismo

Só constatei o que já imaginava: os argentinos são patriotas ferrenhos, coisa que não estou nada acostumado a ver por aqui no Brasil.

Os postes dos bairros são enfeitados com bandeiras de papel. As casas têm bandeiras nas janelas, nas portas (e nem é época de Copa do Mundo) e não importa o estado da casa, desde as mais chiques até as mais simples. É, eu vi uma casinha humilde, cheia de lixo no quintal e muito material reciclável, como um ferro-velho, e lá estava a bandeirinha sofrida, mas flamulando com o vento agarrada à grade enferrujada da janela.

Mendigos

Há mendigos também em BA, como estou acostumado a ver em SP, mas a proporção é muito menor.

Camelôs e expediente

Há muitos camelôs pelas ruas. Eles também têm a Barão de Itapetininga deles, a Calle Florida, forrada de ambulantes misturados aos artesãos, mas que conviviam um conflito com o governo local, que os tirou de lá por alegar que são ilegais (inclusive os artesãos).

E não sei dizer se são mais preguiçosos que nós ou se curtem mais a vida, mas sábado à tarde é sinônimo de comércio fechado. Nem adianta procurar, na Avenida de Mayo, eles querem é descanso…

Em breve a parte II (de III).

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