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Horóscopo não… por favor!

Quando comecei minha história de amizade com as folhas sujas dos jornais era apenas um menino.

Fanático por futebol e algumas outras modalidades, roubava o caderno de Esportes do antigo Diário Popular do meu velho. E lembro claramente do dia em que ele me proibiu de fazê-lo. Não porque ele não gostasse que seu filho lesse jornal, ao contrário, isso muito o orgulhava, afinal ele sempre teve a leitura como símbolo da cultura.

Mas porque ele enxergou ali uma oportunidade de me fazer ter mais conteúdo. A condição era: pra você ler o caderno de esportes, terá que ler algum outro caderno do jornal.

Pois bem, não era tão difícil assim, já que eu não precisava ler integralmente o conteúdo, a intenção dele era apenas que eu me familiarizasse com outros assuntos.

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Assim, me tornei uma pessoa politizada, pois já sabia quem era o Collor, Sarney e outras figuras ilustres de nosso País. Me tornei interessado em causas sociais, conheci minha cidade e seus problemas, soube de opções culturais pela cidade, shows, eventos, enfim, expandi meus horizontes.

Toda essa introdução para contar um episódio que me deixou sem rumo.

Saía eu do prédio onde resido em mais um dia de minhas férias rumando a Avenida Paulista, em busca de uma loja com DVDs antigos para comprar alguns filmes. Como de costume, saí do elevador e pego meu jornal com o porteiro.

Quando viro a esquina, uma vizinha (que mal conheço) me para e pergunta:

– Moço, esse jornal que você tem aí é o Agora?

Por um segundo penso: – Se não for, é muito parecido, não? Aliás, não parece nada com a Folha, nem com o Estadão. (Mas entendi que a pergunta era pra puxar assunto).

– Sim, é o Agora. Por quê?

– Posso dar uma olhada no horóscopo?

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Não acreditei na proposta, pois, por outro segundo, pensei que ela fosse pedir pra ver a manchete, mas logo o horóscopo??? Sem conseguir pensar rápido, fiz algo que detesto: menti. Mas o fiz apostando que, na ignorância de alguém que pede um jornal para ler um horóscopo, a vizinha nem saberia me dizer se eu falava a verdade ou não.

– Esse jornal não tem horóscopo! (Mentira)

E sou pego de bate-pronto…

– Tem sim moço, eu compro todo dia pra ler.

Ainda encafifado, pergunto:

– Você compra o jornal todo dia para ler o horóscopo? Você não lê as notícias?

– Não! Eu não gosto de notícias!

Pois é, fiquei assim… sem reação! Não sabia o que dizer… na verdade eu sabia, gostaria muito de dizer:

– Moça, percebe o quanto o horóscopo muda sua vida e como as notícias podem te dar um pouco mais de conhecimento? Será que você acredita mesmo que um horóscopo é mais útil que informação?

Mas confesso que me faltou coragem, tamanha a surpresa que a proposta me causou.

Nesse interim, meu jornal já era tomado de minha mão, o caderno de variedades era aberto e a folha do horóscopo (que continha “preciosas” informações do episódio do BBB do dia anterior) levada. Não sem antes ouvir:

– Moço, pode deixar que depois eu compro outro jornal pra você e deixo na portaria.

Ainda me recuperando do baque, agradeci, mas não tinha interesse.

Isso não é historinha, agora eu falo com muita verdade: depois disso, entrei na linha amarela do Metrô para ir para a Paulista e acabei tomando o rumo errado, indo parar na Luz. Me corrigi, tomei o rumo correto, desci na estação Paulista, mas como meu destino era o início da Paulista, migrei pra linha verde e buscava me dirigir para a estação Paraíso. Pois é, errei o caminho de novo, ainda pensando no ocorrido, e fui parar no sentido contrário.

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A única coisa que me vinha a mente depois do episódio era a explicação para termos que nos contentar com o Marquito assumindo mandato na Câmara Municipal de SP, o Renan Calheiros ser o principal candidato à presidência do Senado, sermos um povo tão alienado e com tão poucas evoluções em nossa sociedade.

Não que todos devam ser extremamente politizados, envolvidos em causas sociais… cada um escolhe o rumo de suas vidas e seu envolvimento como lhe convém.

Só para finalizar, já trabalhei como editor-assistente de um jornal impresso. E era o responsável pela edição do caderno de variedades. Sabe  o que acontecia quando o “mago” não enviava o horóscopo do dia? Pegávamos algum horóscopo do arquivo e publicávamos.

É anti-ético? Talvez, sim, creio que sim, mas sei que acontece em outras redações e isso é só uma prova de que as previsões para o seu dia podem não ser tão reais como você as aceita.

Quer continuar acreditando em horóscopo? Acredite, eu tenho que respeitar. Afinal, sou contestado sobre minha fé costumeiramente e tenho que respeitar também quem não concorda com minhas crenças.

Mas faça um favor a si próprio(a): leia outras coisas, adquira cultura. Horóscopo está longe de ser cultura…

Por favor!

Fotos: sxc.hu e Google Imagens

Categorias:Textos
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