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Archive for junho \19\UTC 2013

Carta ao turista Joseph Blatter

“O futebol é mais forte que a insatisfação das pessoas.”

Olá sr. Joseph Blatter, presidente da entidade dona do futebol, a FIFA.

Meu nome é Danilo Barra, tenho apenas 27 anos e conheço sua entidade desde que me dei conta de que também sou um apaixonado pelo futebol, por volta dos meus 7 anos, ou seja, mais ou menos 20 anos.

Ao contrário de mim, você não deve conhecer meu país como eu conheço sua entidade. Curiosamente existe algo em comum entre sua entidade e o meu País: ambos são antros de corrupção, mas ainda assim são amados intensamente. Quero dizer, talvez sua entidade não seja tão amada, mas somos obrigados a respeitá-los porque vocês mandam no esporte que amamos.

Você é suíço, né? Pois é, sua nação tem um dos maiores PIB per capita do mundo e uma taxa de desemprego muito pequena, conta com uma infraestrutura de transporte público com perfeita tecnologia e funcional, estradas que ligam todo o país, um sistema educacional exemplar, ou seja, uma qualidade de vida considerável.

Agora vou te apresentar meu País. Sempre sofremos com um mal chamado inflação (como economista, você deve conhecer bem isso), temos um dos piores sistemas carcerários do mundo, o índice de assaltos, roubos e violência é altíssimo (eu mesmo já perdi as contas de quantas vezes fui assaltado e furtado), temos sim um sistema de saúde gratuita porém em condições lamentáveis, com falta de médicos, equipamentos, horas para sermos atendidos, o Metrô de SP tem apenas 74 km de extensão, muito menor que os de Londres (402 km), Nova York (398 km), Cidade do México (201 km) e Santiago do Chile (84 km), entre tantos outros problemas que vou deixar de lado porque preciso continuar este texto.

Agora compare os dois parágrafos acima. Conseguiu identificar a diferença entre nossos países? Não te culpo por trazer as Copas das Confederações e do Mundo para meu Brasil, você é apenas um oportunista que usa o mundo todo para encher os cofres de sua entidade sob o pretexto de um legado.

Legado em países desenvolvidos como Alemanha, Japão e Coréia do Sul, Estados Unidos é fácil. Mas quando seu torneio foi realizado na África do Sul trouxe como legado a construção de estádios suntuosos… que estão às moscas hoje.

Assim como no Brasil, que agora tem estádios maravilhosos, mas faltam vias de acesso com qualidade, hospitais, segurança pública e tantas outras coisas mais essenciais.

Em São Paulo, no Rio de Janeiro e Minas Gerais, centros do futebol, os estádios serão bem utilizados. Mas me diga o que faremos depois com a Arena no meio da Amazônia? Em Brasília? Em Cuiabá? No Rio Grande do Norte? Serão sustentáveis ou serão domicílio de moscas também quando você subir no avião e deixar meu País com os bolsos cheios?

Ressalto: não te culpo pela Copa. Mas justamente por desconhecer as necessidades do meu povo é que você não tem o direito de falar babaquices como a frase que dá início a este texto.

Não estamos usando o teu evento para ganhar mídia para nossos protestos. A mídia não pode mudar a falta de políticas sérias para meu País. Estamos usando as ruas para avisar quem pode mudar essa situação que se não fizerem por onde, nós faremos!

A ti, desejo uma excelente estadia em nossos melhores hotéis, praias, mais belas paisagens e os belos estádios.

E espero sinceramente que você não seja obrigado a usufruir de nenhum de nossos serviços públicos. Só assim você perceberia que já temos estádios de primeiro mundo, agora falta construir um País em volta.

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Imagina na Copa…

“Meu sentimento é de que tudo vai acabar. Tudo pelo o que eu vi, o lugar onde eu moro, o lugar onde eu nasci, as árvores que eu plantei vão tudo se acabar por causa de especulação imobiliária. Nem de progresso é, porque o progresso tá passando do outro lado da pista.”

Pois é Brahma, tenho certeza que nenhum publicitário ou marqueteiro que criou a bela propaganda “Imagina na Copa” conhece a realidade que este evento mundial trará ao povo brasileiro.

É inegável que é o maior evento do planeta, mas é muito questionável o tal legado que a Fifa – “tão bem intencionada (ironia)” – garante que virá ao País.

Sou amante do futebol e vivo intensamente esse momento mágico que se chama Copa do Mundo, acompanhando o máximo de jogos possíveis e torcendo por minha gloriosa Argentina.

Mas acredito que nenhuma alegria pode se sobrepor ao sofrimento alheio.

Neste triste documentário, a Copa mostra suas verdadeiras garras. É uma mostra real de que o comando deste mundo está nas mãos do cifrão e nunca na preservação e respeito à vida.

Os mesmos que marretam as paredes das casas daqueles que são engolidos pelo avanço rumo à Copa são os que vivem com salários mínimos, operários, que vivem em condições iguais a estes, porém do outro lado da cidade e com a sorte de estarem fora do mapa do progresso.

Esse é o triste retrato da Copa: alguns poucos com garrafas de cerveja na mão celebrando a Copa, iludidos por um bordão que justificar-se-á por apenas 30 dias, e outros muitos que viverão os traumas da Copa por anos ou talvez até o fim de suas vidas, pagando pelas suntuosas construções dos belos estádios que talvez nunca tenham a oportunidade de entrar para acompanhar uma partida de seu clube de coração…
… talvez por saber que justamente o futebol, que lhes trouxeram tantas alegrias, hoje é o motivo de suas tristezas!

“A cidadania não é informada, o poder é concentrado, a democracia vai por água abaixo e a forma final desse processo é a parceria público-privada, onde o Poder Público – em nome do público, mas atendendo a interesses privados – negocia caso a caso projetos decepcionais.”

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