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A Virada Cultural precisa ser repensada há tempos

                Escrever um artigo sobre a Virada Cultural é tema fácil anualmente neste blog (2009, 2010 e 2011) . A 10ª edição continua apresentando os mesmos problemas dos anos anteriores quando escrevi, exceto pela organização do exército de garis, que dão um show na limpeza em poucas horas da cidade, deixando o Centro arrumado antes do sol raiar (e às vezes até pouco depois do término do evento).

                Mudei demais o meu pensamento com relação à Virada Cultural nos últimos anos. Se era um crítico ferrenho no início, frequentei em duas edições e vi que há pontos extremamente positivos. Mas ainda há pecados cruciais sendo cometidos e vitimando pessoas.

                A primeira coisa que me choca e me traz repúdio é que, mesmo com cinco baleados e dois esfaqueados em estado grave na Santa Casa, outros 80 frequentadores atendidos por conta do exagero no álcool, drogas e/ou vítimas da violência de ladrões, além dos incontáveis arrastões durante toda a madrugada, a Prefeitura e a Secretaria de Cultura – responsáveis diretas pelo evento – classificam o evento um sucesso.

                Realmente, traçam um comparativo com a quantidade de pessoas que passaram pelo evento – estimado em 3 milhões -, mas eu levanto o mesmo questionamento de ano anterior, quando uma pessoa morreu no evento: “Vale a pena divertir 3 milhões de pessoas em detrimento da morte de uma pessoa? Ou atualizando, vale a pena a diversão em detrimento de sete casos graves de violência e uma série de roubos?”

                Uma vida vale menos do que a diversão de outros milhões? Acho este conceito absurdamente errado. Se minha diversão causar um risco ou sequer um mal-estar ao próximo, esta não tem justificativas para ocorrer.

                A Virada é incrível do ponto de vista de ecletismo, da aproximação dos paulistanos de artistas do País todo, eu já fui em uns poucos shows e acho incrível. Mas muita coisa precisa ser repensada, já que esse formato atual já se mostrou um fracasso total do ponto de vista organizacional e da segurança.

                Há anos atrás, colocaram na conta do RAP a responsabilidade pelo tumulto, afinal o público é preconceituosamente taxado de ladrões e maloqueiros. Viu-se anos depois que a falta de preparo dos policiais é que motivou toda a questão. Tanto que nesta ano, a Virada voltou a contar com um palco exclusivamente do gênero.

                Não estou aqui para pontuar soluções, mas para levantar algumas questões. Como frequentador, cansei de ver GCMs e PMs – a ponta da linha da segurança – assistindo a Virada como eu, ou seja, quando chega a madrugada e os ‘bondes’ tomam as ruas do Centro, atuam ‘preventivamente’, abordando alguns ‘viradeiros’ como praxe e fechando os olhos para muitas ocorrências.

                Calma, eu também vi o número de pessoas presas (ou apreendidas), mais de 100 nesta edição, mas isso não significa metade das ocorrências. Segundo a PM, ocorreram 13 mil abordagens, com 100 presos? Em um evento onde as drogas correm soltas, o álcool é vendido em todos os palcos e os furtos e violência acontecem deliberadamente? Entendo pouco de matemática e esta conta me parece ilógica.

                Outro insucesso foi a programação formulada para este ano. Enquanto uns palcos contavam com grandes atrações como os retornos do Ira! e do RZO, locais foram reservados para as famílias como a Viradinha Cultural, com dezenas de apresentações teatrais e musicais para pais e filhos, outros palcos foram péssimamente preenchidos. Que o diga o Palco Rock, sempre um dos mais bem-sucedidos e cheios da Virada e que, neste ano, foi esvaziado com uma série de bandas alternativas ou sem grande impacto no público.

                É sabido que, como sociedade, não estamos preparados para eventos deste porte. Quer saber a quantidade de pessoas realmente interessadas em cultura? Desde a primeira vez que comentei sobre o tema levantei a bandeira que cultura vai muito além da música. Existem outras vertentes, principalmente um ponto fundamental gerador de cultura que sempre foi ignorado: por quê não disponibilizar bibliotecas no Centro durante a Virada? Livro, revista, leitura não é cultura?

                Não rende porque livro não interessa. Lendo não é possível fazer bagunça, não se lê drogado ou bêbado e muito menos a leitura incentiva atos criminosos. Portanto, por este exemplo, você veria que o real interesse da Virada Cultural não está sendo oferecer cultura gratuita à população.

                Por fim, já que a Prefeitura não admite o erro na fórmula atual e nós, como sociedade, não sabemos aproveitar este evento grandioso (em tamanho) oferecido gratuitamente, que a Virada Cultural torne-se um evento público-privado. Ou seja, a Prefeitura investe na contratação de artistas e no fechamento de um espaço, os interessados comparecem e ali as forças de segurança terão (se quiserem, é claro) um maior controle, com revista e controle das ações dentro deste espaço. Afinal, a rua é terra de ninguém e a Virada Cultural não está sendo um programa para o cidadão de bem, como era o seu propósito inicial.

                A chuva? Ah, ela foi um detalhe. Depois de tantos problemas, Deus já estava cansado lá de cima de ver tanto bagunça que decidiu acabar logo com essa bagunça mais cedo. Certeza que pensava no trabalho dos garis, que limpariam toda a sujeira causada pelos ‘amantes da cultura’ e deu uma ajudinha encerrando antecipadamente e com um pouco de água.

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