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Fé e reflexões – Amiri fala sobre sua nova EP – Capítulo 4 (A Caminho da Origem)

Quem acompanha o trabalho do rapper Amiri desde o início nota claramente uma mudança em suas rimas. De um MC impulsivo e firme em seus argumentos da EP Êta Porra!, passando pela ainda forte EP Trinca, chegando à mixtape ‘Antes, Depois’ – onde já mostrou uma face mais espiritual – e agora, com o lançamento de seu novo trabalho, a EP Capítulo 4 (A Caminho da Origem), quase um tributo à sua fé, crenças e a Deus.

Com letras sérias e reflexivas, a EP traz uma nova face do rapper que deu seus primeiros passos na batalha do Santa Cruz, mas deixou de ser uma promessa a tempos e já tem o seu espaço entre os principais nomes da cena atual da cultura hip-hop.

Ouça a nova EP aqui!

O BlogdoBarr@! conversou com esse MC sobre o contexto desse seu novo trabalho e o resultado você confere abaixo:

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BlogdoBarr@!: Como foi o processo de criação e construção desse novo trabalho?

Amiri: Foi bem centrado, muito energético ao mesmo tempo. Um processo de criação gradativo também, com muita atenção e cuidado com cada faixa.

Foto por Marcos Eiras (Divulgação/Amiri)

BlogdoBarr@!: O Amiri sempre se destacou pelas rimas incisivas e o flow diferenciado, tanto que você mesmo brinca com esta questão do flow em outras músicas. Neste novo trabalho, você parece mais lírico e focado em uma questão divina, quase como um trabalho para falar de sua fé e crenças. O que te levou a esse tema? O Amiri sempre foi espiritualizado ou agora começou a olhar para este lado?

Amiri: Eu sempre me preocupei muito com a lírica em si. A princípio eu achava também interessante trazer a veia das batalhas de MCs pras letras, junto ao que eu já considerava também importante dizer. Todas as vezes que eu me expressei artisticamente tiveram teor espiritual, a princípio um tanto inconsciente, mas tiveram, mesmo sem menção, sabe? Mas hoje eu prezo pela minha saúde mental e isso difere, sabe? Filtro a rota dos pensamentos pra, conforme servir de influência, que seja positiva.

BlogdoBarr@!: Seu primeiro trabalho, o “Eta Porra!” veio como um soco no estômago, quero dizer, rimas fortes de imposição do seu espaço. Essa linha se manteve em “Trinca”, até que veio a mixtape “Antes, Depois”, quando você apresenta uma outra cara ao público, com faixas como Cura (é amor versus medo, não versus ódio), Espelho e Um Mic. São letras que mostram um Amiri que parece olhar mais para o seu interior, preocupado com questões mais profundas. Você sentiu a necessidade de falar desta forma com o seu público?

Amiri: É um pouco do que disse antes. No primeiro registro (Eta Porra!) a princípio, a ideia era só dividir com o pessoal que conheci nas batalhas de MCs. Quando eu decidi fazer o CD, esse era o máximo de alcance garantido que eu teria, então tem um pouco dessa veia, um pouco do que sentia de falar sobre questões étnico-raciais, assim como no “Trinca”. Só que no “Trinca” foi mais estruturado, elaborado, técnicamente dizendo, e o gás lírico ainda era o mesmo, o mesmo ritmo do primeiro registro.
Mas sabe qual que é a fita mesmo? Viril mesmo é quem permite o coração mole, sabe?
No estado são (em nossa plena sanidade), nós só fazemos questão de dividir o que nos fez bem. O que nos acrescenta. Por isso eu fiz questão de compartilhar essas reflexões na mixtape “Antes, Depois”.

BlogdoBarr@!: Em Luz, você diz que “não adianta só ser árvore, tem que ter fruto”. Você se considera árvore começando a frutificar?

Amiri: Eu só posso te dar o que eu realmente tenho. E o que temos? O que temos pra compartilhar? Tende a conduzir ou arrastar? Entende? É isso que questiono.
Eu me sinto, me percebo como canal, mano. Instrumento. Tocando o que estiver ao meu alcance, com base na estrutura do bem. É muito mais satisfatório alimentar nossa vida eterna, não comprometer nossa cidadania celeste, do que sobreviver “a serviço” ego.

Só eu

BlogdoBarr@!: Que “chamado” é esse que você fala em Luz?

Amiri: Chamado do Cristo, mano. Deus dentro de nós.

BlogdoBarr@!:  Há várias referências bíblicas nesse novo trabalho, como ser ‘sal da terra’, ‘toma tua cama e anda’, ‘não adianta só ser árvore, tem que dar fruto’. O livro sagrado teve influência direta na EP?

Amiri: Teve sim. Mas sem ser de forma exatamente religiosa, que depende dos meios, e sim de forma espiritual, que depende do ser, não dos meios, entende?
Eu sinto muito de dividir o que sinto que entendo das Boas Novas do Cristo, sabe? Dividir o que me alimentar o Ser.

BlogdoBarr@!: Suas rimas nessa EP lembram jogos de palavras como fazem poetas, numa linguagem que faz o ouvinte pensar e analisar o que você está dizendo, entrando em uma área que poucos MCs se preocupam, de como o público receberá sua mensagem. Tem uma proposta de fazer o ouvinte pensar?

Amiri: Desde sempre. Eu sempre me interessei por deixar as letras o quanto mais ricas poeticamente possível também. E acho muito importante instigar o raciocínio em quem acessa as expressões ali.
Eu tô um pouco mais maleável com isso, simplificando um pouco. Estão mais sutis as expressões. Tá menos hermético, mais universal, sabe? Dentro disso, a proposta é convidar quem acessa a vir dividir o entendimento das coisas inerentes a todo ser humano.

BlogdoBarr@!: O Amiri talvez seja o MC mais próximo da cultura africana na atualidade. Tanto que em Ayo nota-se claramente o ‘sotaque’ africano ao final. Carregar essa bandeira é uma característica que você faz questão? O que você indica para quem quer conhecer um pouco mais dessa história negada nas escolas brasileiras?

Amiri: Não acho que sou o mais próximo, mas é, primeiramente, tudo empírico o que eu sempre compartilho, não é muito lógico, sabe? Eu acho bem importante estudar, mas isso sempre fez parte da minha vivência e eu fiz questão de manter por perto, logo sempre pus nas músicas. Eu simplesmente me sinto africano, antes de qualquer conceito intelectual, entende? Mas é muito importante o estudo, buscar o conhecimento negado a nós quanto essas questões, logo, o reconhecimento histórico e a importância histórica das questões que se referem à África. Eu amo África com o coração, não só com a cabeça.

BlogdoBarr@!: Tenho a impressão de que o Amiri esteve recluso tratando de questões internas e voltou curado de algo. Essa é a mensagem que capto da EP com rimas como “Pra nunca mais voltar a dor no peito / fiz um trato com o Pai da Cura, acordo feito”, “Now I know the Truth, so you can’t fool the youth, man” e ‘hoje remando na superfície, certo que o remo / só tem me ajudado a ir pra mais perto do pleno’. Este é o objetivo mesmo?

Amiri:  Todo mundo passa por, no mínimo, sentimento semelhante. O que o inimigo fez e faz comigo ele fez e faz com todo mundo. Porém, ir contra a maré que o mundo bêbado de ilusão traz, renova nosso entendimento, sabe? Nos aprofundar em nós mesmos, nos reconectarmos com o que nunca deixamos de ser em essência, nos tira o véu da ilusão.
O objetivo é servir. Convidar todo mundo a se honrar como divino também.
Então eu digo “Agora eu conheço a Verdade, então você não pode enganar a juventude – e humanidade, por isso soa como “human”-, mano. (Now i know the Truth, so you can’t fool the youth, man (human).)

BlogdoBarr@!: Não cabe viver no raso a quem quase morreu no fundo. É uma metáfora ou uma experiência de vida?

Amiri: Os dois. Uma experiência de vida em metáfora.

BlogdoBarr@!: Como você enxerga a sua importância e a relevância desse trabalho para a cultura hip-hop?

Amiri: Eu sei o quanto faz sentido pra mim, sabe? Eu sei o quanto é importante pra mim, a princípio. Tão importante que eu fiz questão dividir com a nossa cultura. E espero muito que contribua positivamente pra vida das pessoas que acessarem essas músicas.

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